quinta-feira, 13 de março de 2008


O assunto pode ser dramático ou engraçado, tão humano e tão difícil de entender.A mim, sempre buscando explicações e significados porque tão pouco entendo, me ocorre falar ou escrever exatamente sobre aquilo que menos sei.Trabalho interminável [...]
Querer alcançar o significado das coisas, da vida, das gentes, de seus relacionamentos e desencontros, é um pouco assim.
Seguidamente me indagam-ou tento imaginar-o que seria um relacionamento perfeito.Eu ia escrever 'casamento', mas preferi a outra palavra, porque ela não tem nada a ver com cartório e burocracia,opressão ou coerção social e familiar: tem a ver com querer se ligar a alguém, e querer continuar ligado.
Cada dia, ao acordar, fazer de novo a escolha: eu quero mesmo é você comigo.
Mas 'perfeito' é uma palavra tola: perfeição, só no céu de todas as utopias.Aqui, nesta nossa terra nada utópica, perfeição me pareceria um pouco entediante: como, nada a reclamar, tudo assim direitinho?
Olho pela janela e bocejo: muito sem graçam a tal perfeição.O céu com anjos tocando harpa pelo tempo sem tempo me deixava pasmada já na infância.Nada mais?Nem uma brincadeira proibida, um escorregão nas nuvens, uma risada na hora do sagrado silêncio...?
Minha alma indisciplinada não encontraria alimento nem estímulo, e ia-se desfazer em fiapo de nuvem embaixo de algum armário onde se guardassem os relâmpagos e os trovões, e todas as duras sentenças.Então, relacionamento perfeito, nem pensar.
Mas uma ligação de cumplicidade e ternura, de sensualidade e mistério, ah, essa eu acho que pode existir.Como todos os contratos (não falo dos de papel mas de corpo, coração e mente), esse precisa ser renovado de vez em quando: a gente tira o contrato da gaveta da alma, e discute.Briga talvez, chora, reclama, mas ainda ama, ainda deseja.Ainda quer o abraço, o passo no corredor, o corpo na cama, o olhar atento por cima da xícara de café...quer até a desorganização e a ruptura, para depois de novo o que é bom se reconstruir.
Que seja vital: isso me parece uma boa parceria.Que seja dinâmica, seja lá o que isso significa em cada caso.Pelo menos, não acomodada; mas muito aconchegante.
[...]O tema é quase infinito: pois cada caso é um caso, assim como cada casal é um casal, e cada fase da vida do indivíduo ou dos dois é diferente.
O bom é quando essa constante transformação se faz para maior cumplicidade, e não mais distanciamento.
Que seja presença e companhia, o relacionamento bom: pois a solidão é um campo demasiado vasto para ser atravessado a sós"-Pensar é transgredir, Lya Luft.